Triangulações, Arão e equilíbrio: as ideias táticas de Abel Braga no Flamengo

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A vitória do Flamengo por 3 a 1 contra a LDU, na Libertadores, não foi apenas o melhor jogo do ano. Foi também a prova que o Flamengo está dentro de um processo maior, o de construção de equipe. Esse mecanismo leva tempo, envolve vitórias e derrotas e exibe pontos e combinações que podem ser de grande valia na temporada.

A única ferramenta para entender o tipo de jogo que Abel quer para o Flamengo é mergulhar em sua mente. Entender suas intenções, suas escolhas e como quer o time jogando. Mesmo com críticas contundentes, o Flamengo mostrou evolução e tem elenco e condições para aprimorar ainda mais a execução dessas ideias. Vamos a elas.

Triangulações e chegada na área: a forma que o Fla leva a bola da defesa ao ataque

O modelo que Abel propõe para o Fla é, essencialmente, um time de triangulações. Aproxima, toca e inverte a bola para chegar na área com muita gente – de preferência dois ou três jogadores. Foi o que mais funcionou contra a LDU. Abel chama essa movimentação de “liberdade” a Diego e Éverton Ribeiro. Eles flutuam por todo o campo, procuram a bola e se associam junto aos laterais – Pará e Renê têm grande poder de tocar e ultrapassar. É rápido, é vertical e é assim que o time leva a bola da defesa até o ataque. Veja a imagem, que mostra essa triangulação acontecendo pela esquerda.

Triangulações do Flamengo contra a LDU — Foto: Leonardo Miranda

Triangulações do Flamengo contra a LDU — Foto: Leonardo Miranda

Eles (atacantes) têm essa liberdade. Em alguns momentos, o Ribeiro vai sair do lado direito e ir por dentro. O Diego vai para direita… Todos eles têm um lado de preferência. – Abel Braga

Contra a LDU, o time teve 68% de posse e construiu 14 chutes, acertando 6. Números que mostram que o Flamengo cria. E perde alguns gols. Ser mais eficiente é um dos desafios que Abel e a torcida reconhecem. Ainda mais contra adversários de maior nível.

Gabriel e Bruno Henrique dão profundidade e opções de passe

Já sabemos que o Flamengo usa os flancos do campo para aproximar, trocar passes e chegar perto do gol. O outro processo dessa etapa é ter gente dentro da área para disputar a bola pelo alto ou aproveitar o cruzamento. As chegadas de Gabigol e Bruno Henrique suprem uma carência que o time tinha desde 2016: profundidade.

Profundidade do Flamengo contra a LDU. Observe o posicionamento de Gabigol e Bruno Henrique — Foto: Leonardo Miranda

Profundidade do Flamengo contra a LDU. Observe o posicionamento de Gabigol e Bruno Henrique — Foto: Leonardo Miranda

Profundidade é o quanto um time está perto do gol quando a bola está no meio. Na imagem abaixo, você vê Gabriel e Bruno colados na linha de defesa da LDU. Um passo a mais, e estariam em impedimento. Um passo a menos, e o zagueiro teria tempo para marcá-lo. Aqui, eles não apenas equilibram o espaço que o time ocupa, mas dão condições para que Éverton (ou Diego, ou qualquer um) ache um passe vertical. O que seria de um camisa 10 sem ninguém à sua frente para receber?

Dar profundidade é uma especialidade de Gabigol desde o Santos, o que motivou Abel a entender seu potencial centralizado, uma sacada de Cuca na retomada do Santos em 2018, e ver que poderia deixar o Ceifador ir. Contra o San José, o gol do Flamengo saiu numa jogada idêntica à da imagem abaixo: Gabriel dá profundidade, identifica um espaço nas costas da defesa adversária e sai no momento do passe. Recebe na cara do gol.

Gabigol sai na cara do gol porque, além de profundidade, é inteligente para entender os espaços — Foto: Leonardo Miranda

Gabigol sai na cara do gol porque, além de profundidade, é inteligente para entender os espaços — Foto: Leonardo Miranda

Arão dá sim equilíbrio ao time, com ou sem a bola

E chegamos ao ponto mais polêmico do ano no Flamengo. Não seria Flamengo se não houvesse um drama. Willian Arão é titular absoluto de Abel Braga e provoca a ira da torcida por alguns erros de passe. Ainda mais quando a contratação mais cara da história, Arrascaeta, está no banco. Mas não adianta reclamar. O que o campo mostra é o que Abel fala: Arão dá equilíbrio ao time, e não é só na defesa. É no ataque também.

Se o Flamengo tem como principal arma as triangulações pelo lado, é preciso ter jogadores que, por instinto e característica, ajudem nesse processo. Quando começa pela direita e associa a Éverton e Pará, Arão consegue ajudar muito o Flamengo com fortes infiltrações. Toca e se movimenta para lacunas, ajudando o time a avançar o campo, como na imagem.

Arão toca e infiltra durante uma triangulação pela direita — Foto: Leonardo Miranda

Arão toca e infiltra durante uma triangulação pela direita — Foto: Leonardo Miranda

Quando você joga contra o Flamengo, a preocupação maior é aquela triangulação que existe entre Pará, Everton Ribeiro e Arão. Jogadas fortes do Flamengo também são as situações criadas pelo lado esquerdo do campo, que o Arão chega muito bem na área. Além disso, ele tem uma recomposição boa, é um cara totalmente dedicado à equipe, ao sistema tático. – Abel Braga

Levar menos contra-ataques, uma preocupação

O Flamengo de 2017 e 2018 era pautado na posse de bola, mas sofria em jogos “grandes”, quando não tinha um plano concreto para matar jogadas rápidas de adversários. Foi assim contra San Lorenzo, Cruzeiro, Independiente….por isso, Abel quer tornar o time mais direto e seguro. Não é retranca. Afinal, o futebol não é feito apenas do ataque, e pensar num time vença seus jogos envolve também um cuidado defensivo muito grande.

Essa preocupação recai no futebol de Arão. Sem a bola, ele protege mais os zagueiros. É, na verdade, o único volante com poder de chegar e roubar a bola. Característica que casa com a forma do Flamengo lidar sem a posse: encaixes por setor, para matar logo a jogada, como na imagem, onde Léo Duarte sai na caça de quem entra em seu setor e Arão acompanha até o fim, ajudando a matar o que poderia ser perigo.

Arão ajuda a Léo Duarte sem a bola — Foto: Leonardo Miranda

Arão ajuda a Léo Duarte sem a bola — Foto: Leonardo Miranda

Para as pessoas é simples, “ah, prefiro ali, tem que botar”, não é bem por aí. Você tem que recuar mais um, não adianta. Você vai largar 68 metros, que é a largura de um campo, para o Cuéllar correr de lado a lado? Pera aí, isso tem que ser dividido. Como eu falei, atacar é uma coisa, mas defender é muito mais fácil, então você ataca sessenta, setenta vezes no jogo para fazer um, dois gols, então toda a hora a bola está voltando. Isso você tem que ter equilíbrio para recuperar e continuar atacando.

Pensar em todos os momentos do jogo e em detalhes na defesa e no ataque é uma das partes do que Abel chama de equilíbrio. O torcedor fica bravo, esperneia e xinga. Não é mais fácil entender as intenções do técnico e os motivos de suas escolhas? O campo mostra que o Flamengo é um time no meio de um processo de construção. Como qualquer outro time em março. Nesse processo, o jogo contra a LDU fortalece o ponto alto do time: com Arão na equipe, pensando pelos lados com Éverton Ribeiro e acelerando na frente com Gabigol.

Fonte: GloboEsportes

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