Onda de suicídio – Uma jornada onde a solidão, a falta de perspectivas, autoestima baixa, o desprezo pela vida podem se transformar numa sentença de morte

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ZACARIAS PENA VERDE

Mãe me desculpa por não ter a força que você gostaria que tivesse. Sinto muito te decepcionar. Mas, acredite, gostaria de poder fazer diferente, mas não consigo. Milena você sempre foi uma ótima mulher. Uma guerreira, um esteio que sempre manteve de pé. Me desculpa pela dor que venho fazendo você passar. Tenho certeza que você saberá educar nossos filhos de uma forma muito melhor com minha ausência. Sei que tenho sido um imenso fardo para todos, principalmente para você. Você é uma mulher linda, reconstrua sua vida. Não sofra. Siga em frente. Tenho certeza que todos vão ficar melhor sem minha presença…

Este é o relato da despedida de um homem de 40 que tirou a própria vida há pouco mais de um mês. Ele articulou tudo para que sua família não desconfiasse. Durante o tratamento de uma depressão profunda, deixou transparecer uma melhora, uma suposta recuperação, mas que na verdade era apenas um blefe.

Ramiro – nome fictício para manter em sigilo a identidade da vítima – saiu de madrugada. Todos dormiam. Pegou o carro e dirigiu até um prédio de quatro andares. Usou um aplicativo para escrever, ou finalizar o texto em que relata as causas que o levaram a tirar a própria vida. Ele voou para a morte, em sua mente, o único remédio capaz de curar a dor imensa que sentia.

O caso de Ramiro – infelizmente – é apenas mais um. O suicídio vem sendo tratado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública.

Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), em média, 11 mil pessoas tiram a própria vida no Brasil a cada ano. Em Porto Velho, dados da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) apontam que a cidade registrou de 2013 a 2018, 180 mortes por suicídio. “O caso é de saúde pública”, declarou Itacy Ferreira, coordenadora da Vigilância em Saúde Agravo Violência da Semusa. Ela afirma que todas as ações estão voltadas para sensibilizar a população sobre essa gravidade.

Em Porto Velho, maior cidade de Rondônia com população estimada em quase 600 mil pessoas, três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) – CAPS Três Marias, Ad e Infantil – funcionam com equipes multiprofissionais – psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, entre outros. São disponibilizadas atividades terapêuticas individuais ou em grupos e acompanhamento psiquiátrico.

“O atendimento à população é espontâneo, ou seja, não é preciso, encaminhamento médico – qualquer pessoa que precisa de ajuda pode chegar em um dos nossos CAPS que será atendido”, informa Lana Assis, gerente do CAPS Três Marias.

A psicóloga Beatriz Ximenes explica que é possível prevenir esse problema de saúde. “Se você tem algum conhecido que está passando por problema psicológico sério, que causa depressão, ajude-o a procurar apoio profissional imediatamente. Entre os fatores de riscos estão os transtornos mentais, traumas amorosos ou financeiros”, disse.

Suicídio no Brasil: idosos com mais de 70 anos detêm a maior taxa

Problemas de saúde, isolamento social causados pela viuvez, separações, distanciamento de filhos e netos, perda de produtividade, além de depressão e doenças crônicas.

Essas são alguns dos fatores que contribuem para que os idosos com mais de 70 anos apresentem as maiores taxa de suicídio no país, segundo dados do boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde. O coordenador do ambulatório do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Rodrigo Leite ressalta que a população está envelhecendo o que pode gerar outros problemas.

“A gente está vivendo mais e com uma qualidade de vida pior e com doenças crônicas que geram incapacidade, geram sobrecarga familiar, geram empobrecimento por conta da perda de renda por conta da aposentadoria ou da incapacidade de trabalhar da questão da crise econômica que leva ao aumento dos planos de saúde. Se você soma todos esses fatores é um prato cheio para o risco de suicídio.”

Alcoolismo

O médico alerta também para o número de casos de alcoolismo entre os idosos. Em muitas situações a fisioterapia, associada a outros tratamentos, pode também ser uma aliada para a saúde mental nessa fase da vida, como explica a fisioterapeuta Luisa Veríssimo.

“Os idosos, com frequencia, perdem essa capacidade de realizar suas atividades de vida diária e através dos exercícios a gente consegue melhorar essa função ou devolver essa função ou senão melhorar. Eu acho que o tratamento fica no meio termo de saber ouvir e ao mesmo tempo identificar esses sinais que mostram que ele precisa de uma melhor qualidade de vida, de uma melhor execução do movimento, e casar essas duas frentes num tratamento global.” Severina Moraes, aposentada do serviço público, está a caminho dos 70 anos e faz parte de um grupo de corrida. Ela já passou por um episódio de grande estresse. Para ela, a atividade física ajudou. Severina aconselha: “O primeiro passo é sair do sofá. A vida é assim, tem problemas e tem soluções também. Se você se identifica com artesanato, vá fazer artesanato. Música, tem aulas de música. Exercício físico, yoga.”

Meta é reduzir 10% dos suicídios até 2020

No ano passado, o Ministério da Saúde lançou uma agenda estratégica para atingir meta da Organização Mundial da Saúde de redução de 10% das mortes por suicídio até 2020.
Segundo a diretora do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da pasta, Thereza de Lamare, o Brasil está abaixo da média de registro de suicídios em relação a outros países. Ela ressalta a importância dos dados do Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil.

“Nos ajudam a orientar onde, como e de que forma a gente deve atuar. É uma ação muito importante que temos junto a outras áreas do Ministério da Saúde.”

Thereza de Lamare fala das ações do Ministério da Saúde. “Nós iniciamos um trabalho desde o ano passado, desenvolvendo uma série de ações junto as nossas unidades de saúde, como também identificando regiões, estados, onde a gente encontrou uma maior concentração. Nós instituímos o Comitê Nacional de Prevenção ao Suicídio. Fizemos uma pareceria com o CVV – Centro de Valorização da Vida.” Quando necessário é importante procurar ajuda com profissionais, nos serviços de saúde, em emergências como o Samu e no Centro de Valorização da Vida no telefone 188, disponível em todo o país. Lembrando sempre que 90% dos casos de suicídio podem ser evitados.

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